Quem sou eu? Quem é o outro?

No filme ao lado, Kaspar Hauser foi privado do convívio social numa espécie de cativeiro. Alí não aderindo ao uso da linguagem e nem podendo apreciar as paisagens. Visto que, desde a tenra idade Hauser está excluído da cultura e da gramática ele não pode pensar, porque não há palavras que possam lhe fazer algum sentido, elas são vagas. 
Ao aparecer em sociedade, a personagem passa a ter experiências a partir da linguagem, dos costumes locais e ainda assim, tudo é muito distante de si. Ele nem mesmo pode se distinguir do mundo, porque não tem a ideia do Eu. Portanto anula a afirmação Descartiana de que o homem pode reconhecer a todas as coisas no mundo. Kaspar é incapacitado de identificar até mesmo o que é uma paisagem ou um ser humano ou um animal, com excessão do cavalo, pois era sua única referencia: Um cavalinho de madeira que o acompanhava na solidão do seu cativeiro. Sendo assim, Kaspar em todos os seus anos, nunca olhou para si  e pensou em autoconhecimento, em personalidade ou raciocínio. Ao sair do seu aprisionamento ele passa a construir-se, baseando-se em padrões culturalmente idealizados.
A noção do Eu cartesiano se perde facilmente. Esta prática de mente e corpo disseminados um do outro onde a experiência do que é verdadeiro da-se a partir do racional deixando de lado os sentidos, se dilui quando analisamos que de fato, um Eu sem cultura jamais poderia elaborar racionalmente, "dialéticamente" uma personalidade. Aqui me ocorre a frase de Hieráclito, onde diz que "o mesmo homem não pode entrar no mesmo rio duas vezes, porque nem o homem de hoje é o homem de ontem e nem o rio de hoje é o mesmo rio de ontem". Estamos em constante transformação. A redundância da visão dos outros, dos nossos pais e dos pais dos nossos pais sobre nós e a cerca de quem somos, sobre esse Eu, como um todo que se possa completar, nos faz crer que somos continuamente os mesmos, evoluindo gradativamente e adquirindo conhecimento ao longo dos anos e não em constante mudança. É um tema delicado de se tratar eu sei, mas não dá pra refutar gratuitamente que somos seres inconsistentes para nos definirmos. Existem comportamentos semelhantes entre alguns indivíduos por exemplo, também reconhecidos por termos parâmetros sociais de avaliação, mas é impossível colocar numa categoria e esquece-los lá. Como se pudéssemos dar sentido, (sentido este referenciado em nossa cultura, junto com sua moral e ética...) para todas as coisas que há, inclusive hierarquizando as diversas forças vivas que há ao alcance do nosso entendimento, colocando a nós, humanos (demasiadamente humanos) em posição de sujeito e todo o resto em situação de meros objetos.
Então, quem sem cultura, sem uma linguagem pararia e se perguntaria: Quem sou eu? Quem é você? E mais, quem consegue, mesmo com cultura delimitar as características de uma pessoa? Mesmo com atributos que se repetem diariamente em alguém, sempre será impossível conhece-la. Só o que resta é o momento em que um encontro acontece, ali há intersubjetividades e a experiência que fica altera nosso estado corporal intrinsecamente conectado a mente. E isto já é transformação.
Confira o filme! Vale a pena refletir sobre a influência da cultura em nosso comportamento e  em nosso jeito de olhar o mundo. Pois, quando refletimos o assunto, começamos a perceber como nossas opiniões, defesas e acusações compartilhadas no meio civilizado são mais ilusórias do que a percepção do mundo pelas vias sensoriais. O importante é encontrar um equilíbrio entre linguagem, cultura e vivência através dos sentidos. E para tal não há fórmulas. Somente fazendo se pode fazer algo.

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